Breve relato sobre o texto: Bem que podia ser verdade

Bem que podia ser verdade

Eu quero a porta da frente, as janelas e as chaves. Um fusca vermelho, uma bicicleta vermelha e morangos. Um abajur com suporte verde, um sofá bege e tapete grande que dê para deitar e dormir abraçado a travesseiros fofinhos com cheiro de ervas, quadros nas paredes, retratos e sorrisos.

Eu quero um imenso quintal, um cachorro parar chamar de Valter, uma varanda grande, cadeira de balanço e histórias.

Eu quero cigarros, vinho nos dias frios e cerveja nos dias quentes, café todos os dias e várias canecas. Andar de camiseta, calcinha e meias pelos corredores, flores, chás e canções, o chio do disco em uma vitrola, o canto dos pássaros, o barulho da máquina de escrever e o som da chaleira.

Quero o sonho, o oposto, a chuva, a calmaria, a solidão, o céu azul, a saudade, o ventre, a alma, a mãe, o pai, os irmãos, a infância, o riso, o choro, concertar o que não ter concerto, dedicar-me a alguém, o passado, o futuro, a alegria de uma manhã sem pressa, sem preço.

Eu quero a utopia esquecidas nos livros, eu quero o livro para encontrar a utopia, quero meus pés cansados de andar por aí, e a barriga cheia de esperança e confiança em uma vida melhor e um mundo melhor.

Mas tenho que deixar a vontade na caixa de recordações e o desejo na gaveta de meias, enquanto isso não acontece, me limito a sonhar e a escrever o que couber em uma folha de papel.

de Taise Rodrigues

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Longe de mencionar qualquer fonte de crítica ou teoria literária, posso lançar olhares para esta prosa poética e indicar sua relevancia literária (considerando o trabalho estético e interpretativo), fato que não implica em adjetivar e nem sobrecarregar de adornos esse texto, mas significa falar que o um texto em sua essência suscita em nós o prazer da leitura, bem como a vontade de conhecer outros textos da autora.

A partir do título pode-se dizer que se trata do mundo do imaginario e do sonho, daquilo que se deseja, que se quer viver ou alcançar. O “eu”, que se repete várias vezes, torna aparente uma subjetividade e um certo confissão intimista, que acaba divindido com o leitor o desejo expresso no texto, é como se houvesse uma transferência do texto para o leitor. Além de aproximar o leitor e fazer dele um amigo, esta prosa trabalha com palavras que dão ritmo e embalam a leitura, flui as palavras suavemente e escorregam até o ponto final, onde morrem.

O trecho “Quero o sonho, o oposto, a chuva, a calmaria, a solidão, o céu azul, a saudade, o ventre, a alma, a mãe, o pai, os irmãos, a infância, o riso, o choro, concertar o que não ter concerto, dedicar-me a alguém, o passado, o futuro, a alegria de uma manhã sem pressa, sem preço”, mostra pela construção simples, que separa as palavras apenas com vírgulas, que as imagens vão se criando, como se fosse algo simbolista. Por essa construção tão livre de complicações, mas rica em imagens e sonhos é que vale a pena falar sobre esse texto. Deixo a aqui aberta as possibilidades de interpretação…

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Fragmentos do texto…

 Torquato Neto: Uma Poética de Estilhaços

Paulo Andrade

  •  Ao redor de obra de Torquato Neto existe um contexto histórico que se destaca por abordar questões relativas ao nacionalismo, à internacionalização da cultura, à dependência econômica do país, ao consumo de ideias importadas e à conscientização da realidade sócio-politico-econômica e cultural.
  • Artistas, intelectuais e os participantes do movimento estudantil acreditavam na transformação da sociedade por meio da palavra e da arte, dessa forma,organizaram grupos culturais preocupados em conscientizar o povo.

  • Por um lado havia uma ditadura de direita, por outro uma efervescência de ideias e a expressiva participação da esquerda no panorama cultural brasileiro. No entanto a liberdade tinha limite,pois as ideias e manifestações não poderiam promover uma transformação na sociedade.

  • A proposta dos artistas engajados pretendia que a arte fosse além do trabalho estético de liberdade criadora e assim assumir uma reflexão mais próxima da realidade. Para eles o trabalho extremo com a forma esvaziava o conteúdo da arte.

  • O teatro dentro desta proposta deveria ter basicamente conteúdo didático, que transmitisse diretamente ao povo mensagens e caráter conscientizador acerca dos problemas que afligiam a sociedade da época. Quanto mais uma peça pudesse divulgar os conteúdos políticos para o povo, sob coordenação dos intelectuais, mais estariam contribuindo para democracia.

  • O discurso engajado das letras durou todo o governo populista de João Goulart (1961-1964), ultrapassou o golpe de Estado e culminou nos festivais de música popular, que tiveram início em 1965. Os festivais, promovidos pelas redes de televisão, tornavam-se espaço de movimentação e manifestação de ideais revolucionários.

  • As letras simples e diretas das canções traziam sempre temáticas sociais. Cantavam-se histórias de personagens marginalizados (homens do campo, boiadeiros, cangaceiro, nordestinos retirantes, operários, marinheiros).

  • Os festivais de Música Popular Brasileira, realizados em São Paulo, ficaram famosos pela movimentação que promoviam e pela adesão de seu público a diferentes posturas políticas defendidas, no palco, pelos jovens cantores.

  • Os tropicalistas faziam uma revisão da crítica da cultura brasileira e evitavam assumir esquemas de atuação político-doutrinária, calcados na ideologia nacionalista, proclamada tanto pelo Teatro Arena, de Augusto Boal, como pelos artistas engajados das músicas de protesto.

  • Os ousados artistas do tropicalismo apresentavam algumas soluções desconcertantes quanto a questão das relações entre política e arte, rompem com o discurso explicitamente político e optam por radiografar as contradições do Brasil. Se a crítica contida nas canções de protesto é política, a do grupo tropicalista indiretamente também é, pelo fato de criticar o reformismo do desenvolvimento e a superficialidade do discurso engajado da canção protesto.

  • Assimilando a cultura de massa, a arte da metade do século XX ganha novas funções , inclusive a de questionar as fronteiras entre as diversas espécies de linguagem, entre os diferentes produtos culturais. O tropicalismo levou às ultimas consequências a invenção, explorando em múltiplas dimensões o dialogo entre várias manifestações da arte: cinema, teatro, artes plásticas, músicas e poesias.

  • Os poetas-letristas do tropicalismo, atuando como catalisadores de polos díspares e opostos, apropriam-se elementos da cultura nacional e internacional, desde o comportamento hippie, e outras formas alternativas de vida.

  • Entre as contribuições significativas que o tropicalismo trouxe para a cultura brasileira , destaca-se a síntese entre música e poesia. A parceria música/poesia já havia sido experimentada pela Bossa Nova com Tom Jobim, Vinícius de Moraes, poeta já consagrado.

  • Foi nos anos 60 que essa interação entre música e poesia ficou mais próxima graças a compositores da geração de Torquato Neto, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Geraldo Vandré. A análise da produção de poetas-letristas como Torquato Neto pressupõe necessariamente uma distinção entre letras de música popular e poesia.

  • Os teóricos estruturalistas afirmam que os versos de um poema pertencem a um universo cíclico, auto-suficiente, que se fecha sobre si mesmo e cujas relações são estabelecidas entre os próprios versos e não entre estes e outras formas de expressão.

  • Ao contrário dos poemas, as letras de música dependem da melodia para ter vida própria. Tal como o cinema que se apoia na imagem, no som e no movimento, há uma interdependência entre ambas.

  • À parte as diferenças de veiculação, de suporte, de tradição e lugar social, no poema (do livro), ou na poesia cantada, estão muitos elementos em comum que os tornam intimamente ligados. Além da evidente função poética da linguagem e das onomatopeias, das sílabas vazias de significado,cuja finalidade é apoiar a melodia, das rimas e dos outros aspectos, destaca-se o ritmo.

  • Muitos textos de Torquato Neto não foram produzidos para serem lidos, mas para serem cantados. É o caso dos que apresentam uma especificidade da letra de música, pela tendência à oralidade e pelo seu caráter de dependência da música.

  • No nível estrutural, os poemas de Torquato Neto se diferenciavam de suas letras. Nos poemas são visíveis a utilização frequente de recursos tipográficos, da fratura inusitada do verso, dos jogos de linguagem e das imagens.

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Um pouco de Concretismo

O concretismo surgiu no Brasil no ano de 1956 e inseriu naquele momento uma transformação formal e ideológica na literatura brasileira, a intenção era contrária da proposta da geração modernista de 45 e se aproximava do antropofagismo de Oswald de Andrade, assim como os tropicalistas.

Segundo BOSI (2006, p. 515): “a poesia concreta é uma reiteração coerente e radical das experiências futuristas e cubistas, lato sensu, modernistas, que pretende superar, uma vez por todas, a poética metafórico-musical do Simbolismo.”, dessa forma pode-se dizer que há uma ruptura com a poética do verso, de acordo com os conceitos clássicos, há um ruptura com a tradição do trabalho estético, para os concretistas a antiga forma já não era suficiente, o poema havia evoluído.

Ao fortalecimento dessa proposta concretista pode-se acrescentar a realidade da sociedade brasileira dos anos 60, que se resumia basicamente em crescimento das industrias, automação, comunicação em massa e era da imagem, tudo isso sem contar o quadro político brasileiro, portanto, como afirma BOSI (2006, p. 515): “tempos em que já não faria sentido o uso da unidade versolinear nem o da frase.”, sendo assim, eram tempos de transformações.

A proposta concretista consistia em uma poética liberta do poema “quadradinho” que existia até então, a poesia concreta não precisa, obrigatoriamente, estar respaldada na sociedade ou abarcar temas sociais, mas mostra que a literatura tem um sentido em si. Essa tendencia nasce a partir das ideias dos formalistas russos, como a teoria de Jakobson, em que o significante sobressai em detrimento do significado.

O poema concreto aparece, primeiramente, sem uma certa linearidade, alguns poemas torna-se dificultoso para nossa compreensão se lidos com olhar vicioso do verso, no entanto se olharmos para o poema como um todo, como se olhássemos uma obra das artes plásticas, daí sim temos uma series de leituras a se fazer nele, por exemplo alguns poemas de Augusto de Campos que além das figuras de linguagem, aliteração e assonância, que dão musicalidade e uma movimentação labial devido aos fonemas fricativos e oclusivos, o poema explora os recursos visuais, “cuja forma-sentido se quer assim potenciar, parecem caminhos promissores enquanto rompem as barreiras tradicionais entre as artes sonoras e as artes plásticas, e convergem para uma percepção mais rica do todo espaciotemporal…” (BOSI, 2006 p.515). De forma geral, os poemas levantam a bandeira formalista, valoriza os significantes e explora os sentidos da imagem e do som.

O ponto de vista teórico que o concretismo defende pode ser percebido no poema de Carlos Drummond de Andrade, Procura da Poesia. Desde os primeiros versos do poeta modernista há uma espécie de metodologia para como deve-se escrever e ler um poema, é um modelo ou a defesa de uma concepção de poesia, Drummond versa na primeira estrofe:

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

O primeiro verso dá a ideia que de não se deve retratar a vida nos poemas, e segue afirmando: o cotidiano não influência, não interessa, não impressiona; no poema não há necessidade da “efusão lírica”, uma crítica a poesia lírica, às correntes Românticas.

Mais adiante no texto há um verso que diz: “ A poesia (não tire poesia das coisas) / elide o sujeito e objeto”, pode-se considerar que este verso, juntamente com a primeira estrofe aqui exposta, expressão a autonomia da poesia, a teoria concretista que afirma que o poema tem sentido em si, sem precisar de uma “desculpa” externa a ele para existir ou alcançar significado.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Estas duas estrofes vão defender o que e como deve ser um poema, o primeiro verso aponta o “reino das palavras”, mas as palavras enquanto significante, como no “estado do dicionário”, paradas e mudas quanto a complexidade, o poema concreto não quer exagero, não quer drama, ele exige calma, ele acredita no poder da palavra e no poder do silêncio como versa Drummond.

Portanto, Procura da poesia defende o ponto de vista teórico da poesia concreta, porém o seu suporte formal não condiz com a teoria concretista, mesmo o auto utilizando versos brancos, ainda há uma construção fundamentada no verso, que a geração modernista de Drummond ainda não havia contestado, há uma linguagem coloquial (mas não vulgar) com um trabalho de selecionar palavras e dar um sentido metafórico, procura se dirigir ao leitor. Portanto, o poema corrobora com o concretismo no tocante a ideologia, mas não no sentido formal.

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O que fazer com um texto?

TRÊS PROFESSORES DE OFICINAS LITERÁRIAS CHAMAM A ATENÇÃO PARA REGRAS BÁSICAS DE LEITURA E ESCRITA
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LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL – “Use em abundância o ponto final”

PARA LER
1. Ignorar os best-sellers, por maior que seja a tentação. Deixe passar cinco anos. Se o livro ainda respirar bem, pode investir.
2. Ler com desconfiança o que lê. Se o livro resistir a essa leitura, é porque é bom.
3. Ler com um lápis na mão. E usá-lo.
4. Conhecer pessoalmente o escritor só depois de ler o livro; caso contrário, a figura do escritor ficará colada ao texto, como um fantasma.
5. Ler edições que tenham bom gosto. Uma edição amadora piora dramaticamente o livro.

PARA ESCREVER
1. Dedicar mais tempo à leitura do que à escrita.
2. Usar em abundância o ponto final, especialmente quando a frase resiste a qualquer conserto.
3. Usar material de primeira qualidade: bom computador, bom papel de impressão, bons cadernos (sugiro o Moleskine), boas canetas, bons lápis.
4. Não levar o laptop para a cozinha ou para a sala de visitas. Se não tiver um gabinete exclusivo, o quarto é uma boa escolha.
5. Escrever apenas sobre o que conhece perfeitamente, mesmo que seja um romance passado no futuro.

LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL é professor na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e autor de “Ensaios Íntimos e Imperfeitos” (L&PM), entre outros livros.
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MARCELINO FREIRE – “Desconfie das dicas que lhe dão”

PARA LER
1. Quanto mais um livro fizer mal, melhor.
2. Confortável precisa ser a cama, não a literatura.
3. Evitar lista dos mais vendidos.
4. Livro não é para ser entendido, é para ser sentido.
5. Desconfiar das dicas que te dão.

PARA ESCREVER
1. Cortar palavras.
2. Não usar gravata na hora de escrever.
3. Ouvir, mesmo que baixinho, a própria voz.
4. Desconfiar daquele texto que sua mãe gostou.
5. Ler e beber muito. E, no mais: viver.

MARCELINO FREIRE é autor, entre outros livros, de “Contos Negreiros” (ed. Record) e organizador de “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” (Ateliê).
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LUÍS AUGUSTO FISCHER – “Leia como se fosse o psicanalista que ouve um paciente”


PARA LER
1. Se você estiver diante de um clássico provado pelos tempos – Shakespeare, Voltaire, Machado de Assis – e acontecer alguma dificuldade na leitura, pode ter certeza de que o problema é seu, não do texto. Bons textos muitas vezes exigem mais de uma tentativa de leitura.
2. No concreto de uma leitura, pode acontecer que a fruição fique embaçada. Antes de entrar em pânico, tente localizar o foco de impasse: se for uma palavra específica que seja desconhecida, para isso existe o dicionário; se não, volte a atenção para os “que”, para os nexos entre as partes da frase.
3. Um texto literário, obra de arte que é (ou aspira a ser), tem direito de ser como é, em sua integridade. Isso alerta para a necessidade de a leitura ser respeitosa: o leitor deve dispor-se a receber as informações e as formas do texto tal como o autor as concebeu. Mas isso não impede que o leitor comum pule fora ao perceber que se honesto empenho de leitura não está sendo recompensado.
4. Um texto literário merece ser lido em pelo menos duas dimensões, uma linear e a outra enviesada. A segunda é menos perceptível, mas muitas vezes é decisiva, e tem sua carnadura num plano alusivo, nas chamadas entrelinhas, num patamar figurado ou alegórico. A boa leitura não pode contentar-se com a decifração daquela primeira dimensão, necessitando uma atenção mais difusa, próxima da atenção que os psicanalistas praticam ao ouvir o paciente.
5. Em narrativas, um detalhe radicalmente importante, em especial nos romances e contos escritos a partir do final do século 19 (no Brasil, o marco é Machado de Assis, mas você pode pensar em Dostoiévski, em Poe, em Falubert), é o jeito de ser do nrrador. O bom leitor sempre mantém em vista que o narrador pode ser parte interessada no enredo, pode ser parcial na avaliação dos fatos e das pessoas que menciona, pode saber mais ou menos do que aparenta.

PARA ESCREVER
1. Tenha sempre em conta que do outro lado de seu texto há, na melhor hipótese, um leitor; e que essa figura, preciosa e fugidia, pode abandonar o barco a qualquer momento. O autor tem todo o direito de radicalizar sua escrita, ser inventivo e ousado, mas também o leitor tem o direito de radicalizar por sua parte, caindo fora.
2. Um das escolhas básicas para quem escreve um relato diz respeito à distância que o texto vai colocar entre a voz narrativa e o(s) personagem(ns), entre as palavras que o leitor vai ler e a vida íntima do personagem, dentro do enredo. Mesmo um narrador de terceira pessoa pode ser muito próximo dos fatos e das pessoas envolvidas, pode acompanhar as ações muito de perto, assim como um narrador de primeira pessoa pode manter uma distância relativamente serena a respeito dos fatos.
3. Embora no sentido trivial o leitor é quem escolhe o texto que vai ler, num sentido muito profundo é o texto que escolhe seu leitor: suas escolhas vão delimitando o mais ou menos sofisticados ou numerosos conforme as opções do autor. Confrontar ou agradar o leitor, eis uma questão que é bom ter em mente, para fazer a escolha que interessa (nisso grandes revolucionários têm muito a ensinar; vejo como Miguel de Cervantes, Honoré de Balzac, Machado de Assis e outros tratam o leitor).
4. Escrever é, em grande medida, administrar entre conhecido e desconhecido, redundância e informação. Um dos riscos sempre implicados nesse campo é o de depender do “background” do leitor, das informações que ele traz (ou não) consigo. Muitas vezes um relato sucumbe porque espera que o leitor aporte conteúdos para compor o sentido de alusões, entreditos, sugestões que o enredo contém.
5. Quem inventa uma ficção está mentindo e espera que o leitor aceita a mentira. Mas sobre essa base há uma outra camada de indispensável verdade: o escritor nunca deve trapacear, nunca fazer pose ou jogar para a torcida. Se começar a contar uma história, tem que assumir o compromisso de contar tudo que importa para que ela aconteça.

LUÍS AUGUSTO FISCHER é crítico literário, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor de “Machado e Borges” (ed. Arquipélago), entre outros.
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Referência: Jornal Folha de São Paulo, domingo, 16 de agosto de 2009, Caderno Mais!, página 7 .

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A Hora de Estrela e Clarice Lispector: um breve relato sobre a obra, sua características e sua autora

A Hora da Estrela é um romance escrito por Clarice Lispector, publicado em 1977. Clarice inicia um estilo feminista, com romances que rompem com a estabilidade da narrativa e são acentuados pelos fluxos de consciência, os quais permitem que o texto tenha um aspecto intimista, mas a capacidade da autora de investigar profundamente o psicológico das personagens que cria a distingue dos demais escritores de cunho intimista.
A história possuí características inovadores, desde a composição das personagens até o foco narrativo, a autora trabalha um enredo que vai se construindo aos poucos diante do leitor, há nesse “deixar-se levar” da narrativa um “ar” natural, mesmo que seja falso e totalmente manipulado pelo narrador onisciente e onipotente.
A narrativa começa por umas divagações do narrador, “Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei.”(LISPECTOR,1995:26). O narrador apresenta o motivo pelo qual vai contar a história da nordestina (personagem central), “Porque escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz o conteúdo. Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de “força maior” (LISPECTOR, 1995: 32), como se fosse muito mais uma confissão, “pois a datilógrafa não quer sair dos meus ombros” (LISPECTOR, 1995, p.36) e ao mesmo tempo tem a noção que é um escritor e produz literatura, o narrador também por várias vezes se compara com a vida e a situação da nordestina.
A protagonista nasceu no estado de Alagoas, os pais morreram quando ela tinha apenas dois anos de vida, mais tarde mudou-se para Maceió com a tia beata que a criou, a tia era muito rígida e batia muito em Macabéa, como chamava essa jovem. Já moça foi morar no Rio de Janeiro onde arrumou um emprego de datilógrafa, sua tia morrera e era sozinha.
Macabéa dividiu um quarto alugado com mais quatro moças, todas chamavam Maria, mas com elas não possuía amizade, o mais próximo de uma amizade que Macabéa conhecia era o seu relacionamento com Glória, colega de emprego, ainda assim Glória era muito distante de Macabéa, era mais viva, menos insignificante e tinha classe social.
A jovem nascera raquítica, era feia e não cheirava muito bem, pois pouco se lavava, vivia de economia, economizava comida, economizava alegria:

“Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço. No espelho distraidamente examinou de perto as manchas no rosto. Em Alagoas chamavam-se “panos”, diziam que vinham do fígado. Disfarçava os panos com grossa camada de pó branco e se ficava meio caiada era melhor que o pardacento. Ela toda era um pouco encardida pois raramente se lavava. De dia usava saia e blusa, de noite dormia de combinação. Uma colega de quarto não sabia como avisar-lhe que seu cheiro era morrinhento.” (LISPECTOR, 1995:42)

Tinha uma inocência a ponto de acreditar em tudo, sua tia beata incutiu em sua cabeça uma moralidade um pouco exagerada, Macabéa tinha medo do pecado, do mal, do erro segundo uma visão cristã, no entanto não entendia muito bem, apenas acreditava que era assim, e não só no tocante a religião, a moça pensava que sua vida vazia e sem luxo era assim por que as coisas são simplesmente assim.
No decorrer dos dias e nessa mesma vida de inocente felicidade, a jovem conhece um rapaz e se apaixona, um nordestino como ela, só que vindo da Paraíba, o rapaz é ambicioso e malandro, quer ser reconhecido, sonha em ser popular, um deputado ou artista de cinema, assim como Macabéa, a moça queria ser estrela de cinema (daí o nome A Hora da Estrela), como a Marilyn Monroe. Eles namoram durante um tempo até que Olímpico a troca por Glória devido a seus interesses materiais.
A moça volta para sua vida solitária, mas não fica triste, para ela, segundo o narrador, a vida é assim mesmo. Depois do término do namoro, a moça volta-se um pouco mais para si, é aí que deseja ainda mais ser outra, ser Marilyn Monroe e compra um batom novo, cor vermelha, fato que evidência a influência dos filmes de Hollywood e a ascensão das mulheres enquanto símbolos sociais e sexuais:


“Esqueci de dizer que no dia seguinte ao que ele lhe dera o fora ela teve uma idéia. Já que ninguém lhe dava festa, muito menos noivado, daria uma festa para si mesma. A festa consistiu em comprar sem necessidade um batom novo, não cor-de-rosa como o que usava, mas vermelho vivante. No banheiro da firma pintou a boca toda e até fora dos contornos para que os seus lábios finos tivessem aquela coisa esquisita dos lábios de Marylin Monroe. Depois de pintada ficou olhando no espelho a figura que por sua vez a olhava espantada. Pois em vez de batom parecia que grosso sangue lhe tivesse brotado dos lábios por um soco em plena boca, com quebra-dentes e rasga-carne (pequena explosão). Quando voltou para a sala de trabalho Glória riu-se dela” (LISPECTOR, 1995:79)

Macabéa vai consultar uma cartomante para saber de sua sorte futura, como sugeriu Glória, ao entrar no estabelecimento da cartomante a senhora lhe dá esperanças de um futuro promissor, cheio de surpresas e felicidade, mas também é o momento no qual Macabéa perde a inocência, pois passa a saber, segundo os comentários da cartomante, que seu passado e seu presente eram horríveis, no entanto continuou entusiasmada com seu futuro. Quando a consulta acaba e a moça vai atravessar a rua, é atropelada por um carro de luxo, bate a cabeça, delira e morre.
A personagem central, uma mulher que levava uma vida tão difícil que acaba por reduzir essa existência humana a um simples existir de qualquer animal e até de certa forma insignificante, daí a grande pergunta que perpassa o romance: quem sou? E daí o medo da resposta, fato que nos remete a Graciliano Ramos, em Vidas Secas o personagem Fabiano não sabe se é homem, se é bicho.
A própria situação de Macabéa enquanto mulher é inovadora e uma forma de denuncia a esta repressão vivida pela mulher, mesmo não sendo o foco do romance. A questão feminina em A Hora da Estrela é diferente em comparação as literaturas anteriores, a marginalização de Macabéa é grande, pois, primeiramente, é mulher e por esse simples fato já implica em uma mão de obra barata e um papel social inflexível do ponto de vista da sociedade patriarcal. O segundo ponto, ela é pobre e nordestina, mais um aspecto que a torna um ser excluído.
Falar de uma pessoa com tais atributos físicos já mencionados aqui e ainda nesta situação social é um trabalho inovador, que procura um tom de denuncia da repressão vivida pela mulher, mas apesar dessa vida precária de Macabéa não implica em um futuro traçado e imutável como o destino que transferido a todas as personagens femininas dos romances na história da literatura.
Em uma perspectiva histórica, segundo a maioria das obras literárias, as mulheres tinham sua função social marcada, ou elas se casavam e viravam mães de família, ou seguiam a vida religiosa como freira, ou tomava os rumos noturnos como prostituta. Macabéa era diferente das tradicionais personagens, ela faz parte das mulheres que não tinham ninguém e mesmo assim não caiam na prostituição, ela se sustenta, embora sem luxo, sem os prazeres da vida, pode-se dizer que era de certa forma independente, mesmo que seja subjulgada por essa sociedade patriarcal que não valoriza o trabalho da mulher, isto é, a mulher que trabalha fora de casa e que na tem ninguém:

“Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiram como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?” (LISPECTOR, 1995:28)

Olímpico de Jesus, o namorado de Macabéa, é um personagem que ocupa um papel importante, mas que fica dentro dos seus limites de coadjuvante, ele é um sertanejo de caráter valente, interesseiro e que busca uma certa delicadeza em meio a sua brutalidade natural, isso mostra que sua cultura e gênio de quem veio da seca e da vida dura não são bem encaixados no contexto urbano do Rio de Janeiro, mas mesmo assim o sujeito é ambicioso.
O namorado ocupa apenas a função de companheiro, de ser amado e não de um homem superior que ela dependesse para viver, apenas gostava dele, gostava de agradá-lo e não queria perde-lo.
Glória é uma personagem que tem vantagens sobre a protagonista, Glória tem uma classe social, tem pai e mãe, tem “carnes” e era carioca., essas vantagens chamaram a atenção de Olímpico. A colega de trabalho de Macabéa participa da história como alguém que a nordestina admira.
Existem ainda outros personagens, como seu Raimundo Silveira, As quatro Marias com as quais a protagonista morava, a Madama Carlota e o médico, no entanto, vamos nos ater a um outro muito importante, o que narra a história a se coloca como um personagem:

“Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora obrigado a usar palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser mordenoso e inventar modismos à guisa de originalidade. (LISPECTOR, 1995:26-27)

O narrador se chama Rodrigo S. M., como mostra o trecho. Este conta uma história que não é dele, mas sim de uma personagem inventada, que poderia ser real, o narrador conhece inteiramente suas personagens, nasceu dele e o incomoda, principalmente aquela nordestina, a qual aos poucos vai se descobrindo no enredo.
Há muitas comparações entre Macabéa e o narrador, eles são até certo ponto parecidos na solidão e no sofrimento, mas o narrador divaga sobre o ato de escrever, como se o problema dele estivesse centrado na sua identidade enquanto autor de literatura, o que nos sugere uma crítica vinda de Clarice Lispector enquanto autora feminina e também sugere as duas histórias que se cruzam a do autor (narrador) e da moça protagonista, junto com o desafio de escrever o livro e escrever sobre si mesmo.
Esta obra vai se construir com as inovações e características singulares as quais mencionei, críticos literários comparam a produção literária de Clarice Lispector com as de Virginia Woolf e bem no começo de suas obras a questão feminina não foi logo debatida, outros aspectos, em um primeiro momento, chamaram mais atenção da crítica literária vigente. Segundo BOSI (2006, p. 452) “O uso intensivo da metáfora insólita, a entrega ao fluxo de consciência, a ruptura com o enredo factual têm sido constantes do seu estilo de narrar que, na sua manifesta heterodoxia, lembra o modelo batizado por Umberto Eco de “opera aperta”. Concordo com as palavras do crítico, pois os fluxos de consciência tornam as obras de Clarice Lispector intimistas e abertas, como uma confissão, quase escritas e lidas com uma naturalidade, dada por certa impulsão:

“Sim, estou apaixonado por Macabéa a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiúra e anonimato total pois ela não é para ninguém. Apaixonado por seus pulmões frágeis, a magricela. Quisera eu tanto que ela abrisse a boca e dissesse:
– Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém; todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha.” (LISPECTOR, 1995, p.86)

A Hora da Estrela retrata a percepção da realidade segundo as reflexões intimistas feitas pelo fluxo de consciência, para BAILEY (2006, p.11) “…o uso de metáforas e imagens inusitadas, a quebra da relação de causa e efeito, o uso da ambigüidade, o fluxo da consciência e o monólogo interior, os quais servem em sua obra para revelar a relação entre sujeito e realidade exterior mediante a percepção que esse sujeito tem da realidade.”
Por fim, A Hora da Estrela foi um dos últimos romances publicados da autora, marcado pelas características que Clarice Lispector carregou desde as primeiras obras, suas personagens femininas fortes, seu fluxo de consciência que abala a estrutura da narrativa tradicional e o jeito metafórico de detalhar o psicológico configuram suas obras, assim como, A Hora da Estrela não deixar de ser um bom exemplo disso.

Referências:

BAILEY, Cristina F. P. Clarice Lispector e a Crítica. In: BAILEY, Cristina F. P., ZILBERMAN, Regina. (Orgs). Clarice Lispector: Novos Aportes Críticos. Pittsburgh: Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana, 2006, p. 7-23.

BOSI, Afredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006.

LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

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Realengo

1) Em março de 2009, em Wendlingen, Alemanha, um jovem de 17 anos entrou no colégio do qual ele tinha sido aluno e começou uma matança que terminou com seu suicídio e custou a vida a 15 pessoas.
Na época, notei que, para os suicidas-assassinos de massa, encarnar o anjo da morte é sempre uma demonstração pública. E perguntei: uma demonstração de quê?
Pois é, num mundo dominado por máscaras e aparências, talvez os únicos eventos que se destaquem por serem indiscutivelmente reais sejam o nascimento e a morte. Nessa ótica, as meninas, para nos obrigar a levá-las a sério, podem engravidar e dar à luz. Quanto aos meninos, o que lhes sobra para serem levados a sério é morrer ou matar.
Por isso as meninas pensam no amor, e os meninos, na guerra; as meninas sonham em ser mestres da vida, os meninos sonham em ser mestres da morte.
Em suma, atrás da singularidade das razões de cada um, os suicidas-assassinos (todos homens) parecem agir na tentativa desesperada de se levarem a sério e de serem, enfim, levados a sério: “O mundo me despreza e me desprezará mais ainda, mas, diante de meu ato mortífero, não poderá negar que sou gente grande, um “macho de respeito'”.
Mais um detalhe. Cada vez mais, a preservação da vida parece ser nosso valor supremo. Todos estão dispostos a qualquer coisa para não morrer; não é estranho que, de repente, aos olhos de alguns, a verdadeira marca de superioridade pareça ser a facilidade em matar e se matar.
2) É possível que a vida escolar de Wellington, o assassino de Realengo, tenha sido um suplício. Mas a simples vingança pelo bullying sofrido não basta para explicar seu ato. Eis um modelo um pouco mais plausível (e infelizmente comum).
Durante sua adolescência, um jovem é zombado pelos colegas e, sobretudo, pelas meninas que despertam seu desejo. Para se proteger contra a recusa e a humilhação, o jovem se interdita o que ele deseja e que lhe está sendo negado: “As meninas que eu gosto riem de mim e de meu desejo por elas; para não me transformar numa piada, farei da necessidade virtude: entrarei eu mesmo em guerra contra meu desejo. Ou seja, transformarei a exclusão e a gozação num valor: não fui rechaçado, eu mesmo me contive –por exemplo, porque quero me manter ilibado, sem mancha”.
Wellington, o assassino de Realengo, na sua carta de despedida, pede para não ser contaminado por mãos impuras. Difícil não pensar no medo de ele ser contaminado por suas próprias mãos, e no fato de que a morte das meninas preservaria sua pureza, libertando-o da tentação.
A matança, neste caso, é uma maneira de suprimir os objetos de desejo, cuja existência ameaça o ideal de pureza do jovem. Ora, é graças a esse ideal que ele transformou seu fracasso social e amoroso numa glória religiosa ou moral. Como se deu essa transformação?
Simples. Para transformar os fracassos amorosos em glória, o fanatismo religioso é o cúmplice perfeito. Funciona assim: você é isolado? Sente-se excluído da festa mundana? Pois bem, conosco você terá uma igreja (real ou espiritual, tanto faz) que lhe dará abrigo; ajudaremos você a esquecer o desejo de participar de festas das quais você foi e seria excluído, pois lhe mostraremos que esse não é seu desejo, mas apenas a pérfida tentação do mundo. Você acha que foi rechaçado? Nada disso; ao contrário, você resistiu à sedução diabólica. Você acha que seu desejo volta e insiste? Nada disso, é o demônio que continua trabalhando para sujar sua pureza.
Graças ao fanatismo, em vez de sofrer com a frustração de meus desejos, oponho-me a eles como se fossem tentações externas. As meninas me dão um certo frio na barriga? Nenhum problema, preciso apenas evitar sua sedução –quem sabe, silenciá-las.
Fanático (e sempre perigoso) é aquele que, para reprimir suas dúvidas e seus próprios desejos impuros, sai caçando os impuros e os infiéis mundo afora.
Há uma lição na história de Realengo –e não é sobre prevenção psiquiátrica nem sobre segurança nas escolas. É uma lição sobre os riscos do aparente consolo que é oferecido pelo fanatismo moral ou religioso. Dito brutalmente, na carta sinistra de Wellington, eu leio isto: minha fé me autorizou a matar meninas (e a me matar) para evitar a frustrante infâmia de pensamentos e atos impuros.

Texto do psicanalista Contardo Calligaris, publicado no Caderno Ilustrada, página E16, do jornal Folha de São Paulo, na quinta-feira, 14 de abril de 2011.

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Faz Parte Do Meu Show

Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor
Te levo pra festa e testo o teu sexo com ar de professor
Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Confundo as tuas coxas com as de outras moças
Te mostro toda a dor
Te faço um filho
Te dou outra vida pra te mostrar quem sou
Vago na lua deserta das pedras do Arpoador
Digo ‘alô’ ao inimigo
Encontro um abrigo no peito do meu traidor

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou
Vivo num ‘clip’ sem nexo
Um pierrot retrocesso
meio bossa nova e ‘rock’n roll’

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Meu amor, meu amor, meu amor…
__________________________________________
Opa ! não é Chico Buarque, dessa vez é Cazuza…
Bom…o que primeiro quero destacar é que não vou construir aqui uma crítica puramente social, nem puramente intimista, quero apenas dizer que nota-se nesta música uns “flashs” de uma vida cheia de juventude e intensidade.

“Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor…”, não tem como ler este trecho e não sentir saudades dos tempos de escola, da adolescência, dos primeiros amores, das primeiras sensações, tudo isso configura em nossa memória imagens boas e saudosas, uma juventude única que transborda vida.

“Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão…”
Um amor jovem, curto e sem compromisso, mas é a partir desse amor é que as coisas evoluem e se tornam mais sérias, no entanto ainda com gosto de brincadeira: ” Confundo as tuas coxas com as de outras moças/Te mostro toda a dor/Te faço um filho/Te dou outra vida pra te mostrar quem sou…”. Este narrador que conta para pessoa amada seu caráter, sua coragem, seu jeito forte e potente de mostrar como é a vida com ele, ao mesmo tempo, usando verbos no presente, é um filme perfeito de algo que já foi e chegou ao fim, uma vida que pra ele não faz mais sentindo: “Vivo num ‘clip’ sem nexo…”.
Então, temos a tragetória de um amor que pela melodia e pela letra nos deixa claro a nostalgia de toda essa história.
Mas o que temos de tão importante em escrever sobre essa música?
O que temos de importante em escrever sobre uma coisa que passa pelo nossos olhos como uma simples música meio romântica?
O que eu quero destacar aqui é que as mais simples coisas da vida, os mais inocentes amores, as menores atitudes, tudo de simples constrói a nossa vida, nossa vida particular, nossa vida social e as consequências estão em todas as classes, não respeita cor e não respeita religião, nossas escolhas refletem a sociedade e caracterizam a mesma. São detalhes da nossa vida particular que configuram a nossa história, é a história que compartilhamos com todos e que ao mesmo tempo é tão única.
O título da música resume e se encaixa perfeitamente ao caráter do narrador e a visão de vida que ela transmite: “Faz parte do meu Show”
Assim a vida se faz em palco, onde vivemos o nosso show, onde cada um possuí sua performace, onde nossos atos se misturam e geram consequências, sem que possamos desviar do que há de vir.
Isto me saiu mais intimista mesmo, mas não importa.

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