Breve relato sobre o texto: Bem que podia ser verdade

Bem que podia ser verdade

Eu quero a porta da frente, as janelas e as chaves. Um fusca vermelho, uma bicicleta vermelha e morangos. Um abajur com suporte verde, um sofá bege e tapete grande que dê para deitar e dormir abraçado a travesseiros fofinhos com cheiro de ervas, quadros nas paredes, retratos e sorrisos.

Eu quero um imenso quintal, um cachorro parar chamar de Valter, uma varanda grande, cadeira de balanço e histórias.

Eu quero cigarros, vinho nos dias frios e cerveja nos dias quentes, café todos os dias e várias canecas. Andar de camiseta, calcinha e meias pelos corredores, flores, chás e canções, o chio do disco em uma vitrola, o canto dos pássaros, o barulho da máquina de escrever e o som da chaleira.

Quero o sonho, o oposto, a chuva, a calmaria, a solidão, o céu azul, a saudade, o ventre, a alma, a mãe, o pai, os irmãos, a infância, o riso, o choro, concertar o que não ter concerto, dedicar-me a alguém, o passado, o futuro, a alegria de uma manhã sem pressa, sem preço.

Eu quero a utopia esquecidas nos livros, eu quero o livro para encontrar a utopia, quero meus pés cansados de andar por aí, e a barriga cheia de esperança e confiança em uma vida melhor e um mundo melhor.

Mas tenho que deixar a vontade na caixa de recordações e o desejo na gaveta de meias, enquanto isso não acontece, me limito a sonhar e a escrever o que couber em uma folha de papel.

de Taise Rodrigues

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Longe de mencionar qualquer fonte de crítica ou teoria literária, posso lançar olhares para esta prosa poética e indicar sua relevancia literária (considerando o trabalho estético e interpretativo), fato que não implica em adjetivar e nem sobrecarregar de adornos esse texto, mas significa falar que o um texto em sua essência suscita em nós o prazer da leitura, bem como a vontade de conhecer outros textos da autora.

A partir do título pode-se dizer que se trata do mundo do imaginario e do sonho, daquilo que se deseja, que se quer viver ou alcançar. O “eu”, que se repete várias vezes, torna aparente uma subjetividade e um certo confissão intimista, que acaba divindido com o leitor o desejo expresso no texto, é como se houvesse uma transferência do texto para o leitor. Além de aproximar o leitor e fazer dele um amigo, esta prosa trabalha com palavras que dão ritmo e embalam a leitura, flui as palavras suavemente e escorregam até o ponto final, onde morrem.

O trecho “Quero o sonho, o oposto, a chuva, a calmaria, a solidão, o céu azul, a saudade, o ventre, a alma, a mãe, o pai, os irmãos, a infância, o riso, o choro, concertar o que não ter concerto, dedicar-me a alguém, o passado, o futuro, a alegria de uma manhã sem pressa, sem preço”, mostra pela construção simples, que separa as palavras apenas com vírgulas, que as imagens vão se criando, como se fosse algo simbolista. Por essa construção tão livre de complicações, mas rica em imagens e sonhos é que vale a pena falar sobre esse texto. Deixo a aqui aberta as possibilidades de interpretação…

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