Fragmentos do texto…

 Torquato Neto: Uma Poética de Estilhaços

Paulo Andrade

  •  Ao redor de obra de Torquato Neto existe um contexto histórico que se destaca por abordar questões relativas ao nacionalismo, à internacionalização da cultura, à dependência econômica do país, ao consumo de ideias importadas e à conscientização da realidade sócio-politico-econômica e cultural.
  • Artistas, intelectuais e os participantes do movimento estudantil acreditavam na transformação da sociedade por meio da palavra e da arte, dessa forma,organizaram grupos culturais preocupados em conscientizar o povo.

  • Por um lado havia uma ditadura de direita, por outro uma efervescência de ideias e a expressiva participação da esquerda no panorama cultural brasileiro. No entanto a liberdade tinha limite,pois as ideias e manifestações não poderiam promover uma transformação na sociedade.

  • A proposta dos artistas engajados pretendia que a arte fosse além do trabalho estético de liberdade criadora e assim assumir uma reflexão mais próxima da realidade. Para eles o trabalho extremo com a forma esvaziava o conteúdo da arte.

  • O teatro dentro desta proposta deveria ter basicamente conteúdo didático, que transmitisse diretamente ao povo mensagens e caráter conscientizador acerca dos problemas que afligiam a sociedade da época. Quanto mais uma peça pudesse divulgar os conteúdos políticos para o povo, sob coordenação dos intelectuais, mais estariam contribuindo para democracia.

  • O discurso engajado das letras durou todo o governo populista de João Goulart (1961-1964), ultrapassou o golpe de Estado e culminou nos festivais de música popular, que tiveram início em 1965. Os festivais, promovidos pelas redes de televisão, tornavam-se espaço de movimentação e manifestação de ideais revolucionários.

  • As letras simples e diretas das canções traziam sempre temáticas sociais. Cantavam-se histórias de personagens marginalizados (homens do campo, boiadeiros, cangaceiro, nordestinos retirantes, operários, marinheiros).

  • Os festivais de Música Popular Brasileira, realizados em São Paulo, ficaram famosos pela movimentação que promoviam e pela adesão de seu público a diferentes posturas políticas defendidas, no palco, pelos jovens cantores.

  • Os tropicalistas faziam uma revisão da crítica da cultura brasileira e evitavam assumir esquemas de atuação político-doutrinária, calcados na ideologia nacionalista, proclamada tanto pelo Teatro Arena, de Augusto Boal, como pelos artistas engajados das músicas de protesto.

  • Os ousados artistas do tropicalismo apresentavam algumas soluções desconcertantes quanto a questão das relações entre política e arte, rompem com o discurso explicitamente político e optam por radiografar as contradições do Brasil. Se a crítica contida nas canções de protesto é política, a do grupo tropicalista indiretamente também é, pelo fato de criticar o reformismo do desenvolvimento e a superficialidade do discurso engajado da canção protesto.

  • Assimilando a cultura de massa, a arte da metade do século XX ganha novas funções , inclusive a de questionar as fronteiras entre as diversas espécies de linguagem, entre os diferentes produtos culturais. O tropicalismo levou às ultimas consequências a invenção, explorando em múltiplas dimensões o dialogo entre várias manifestações da arte: cinema, teatro, artes plásticas, músicas e poesias.

  • Os poetas-letristas do tropicalismo, atuando como catalisadores de polos díspares e opostos, apropriam-se elementos da cultura nacional e internacional, desde o comportamento hippie, e outras formas alternativas de vida.

  • Entre as contribuições significativas que o tropicalismo trouxe para a cultura brasileira , destaca-se a síntese entre música e poesia. A parceria música/poesia já havia sido experimentada pela Bossa Nova com Tom Jobim, Vinícius de Moraes, poeta já consagrado.

  • Foi nos anos 60 que essa interação entre música e poesia ficou mais próxima graças a compositores da geração de Torquato Neto, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Geraldo Vandré. A análise da produção de poetas-letristas como Torquato Neto pressupõe necessariamente uma distinção entre letras de música popular e poesia.

  • Os teóricos estruturalistas afirmam que os versos de um poema pertencem a um universo cíclico, auto-suficiente, que se fecha sobre si mesmo e cujas relações são estabelecidas entre os próprios versos e não entre estes e outras formas de expressão.

  • Ao contrário dos poemas, as letras de música dependem da melodia para ter vida própria. Tal como o cinema que se apoia na imagem, no som e no movimento, há uma interdependência entre ambas.

  • À parte as diferenças de veiculação, de suporte, de tradição e lugar social, no poema (do livro), ou na poesia cantada, estão muitos elementos em comum que os tornam intimamente ligados. Além da evidente função poética da linguagem e das onomatopeias, das sílabas vazias de significado,cuja finalidade é apoiar a melodia, das rimas e dos outros aspectos, destaca-se o ritmo.

  • Muitos textos de Torquato Neto não foram produzidos para serem lidos, mas para serem cantados. É o caso dos que apresentam uma especificidade da letra de música, pela tendência à oralidade e pelo seu caráter de dependência da música.

  • No nível estrutural, os poemas de Torquato Neto se diferenciavam de suas letras. Nos poemas são visíveis a utilização frequente de recursos tipográficos, da fratura inusitada do verso, dos jogos de linguagem e das imagens.

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