Um pouco de Concretismo

O concretismo surgiu no Brasil no ano de 1956 e inseriu naquele momento uma transformação formal e ideológica na literatura brasileira, a intenção era contrária da proposta da geração modernista de 45 e se aproximava do antropofagismo de Oswald de Andrade, assim como os tropicalistas.

Segundo BOSI (2006, p. 515): “a poesia concreta é uma reiteração coerente e radical das experiências futuristas e cubistas, lato sensu, modernistas, que pretende superar, uma vez por todas, a poética metafórico-musical do Simbolismo.”, dessa forma pode-se dizer que há uma ruptura com a poética do verso, de acordo com os conceitos clássicos, há um ruptura com a tradição do trabalho estético, para os concretistas a antiga forma já não era suficiente, o poema havia evoluído.

Ao fortalecimento dessa proposta concretista pode-se acrescentar a realidade da sociedade brasileira dos anos 60, que se resumia basicamente em crescimento das industrias, automação, comunicação em massa e era da imagem, tudo isso sem contar o quadro político brasileiro, portanto, como afirma BOSI (2006, p. 515): “tempos em que já não faria sentido o uso da unidade versolinear nem o da frase.”, sendo assim, eram tempos de transformações.

A proposta concretista consistia em uma poética liberta do poema “quadradinho” que existia até então, a poesia concreta não precisa, obrigatoriamente, estar respaldada na sociedade ou abarcar temas sociais, mas mostra que a literatura tem um sentido em si. Essa tendencia nasce a partir das ideias dos formalistas russos, como a teoria de Jakobson, em que o significante sobressai em detrimento do significado.

O poema concreto aparece, primeiramente, sem uma certa linearidade, alguns poemas torna-se dificultoso para nossa compreensão se lidos com olhar vicioso do verso, no entanto se olharmos para o poema como um todo, como se olhássemos uma obra das artes plásticas, daí sim temos uma series de leituras a se fazer nele, por exemplo alguns poemas de Augusto de Campos que além das figuras de linguagem, aliteração e assonância, que dão musicalidade e uma movimentação labial devido aos fonemas fricativos e oclusivos, o poema explora os recursos visuais, “cuja forma-sentido se quer assim potenciar, parecem caminhos promissores enquanto rompem as barreiras tradicionais entre as artes sonoras e as artes plásticas, e convergem para uma percepção mais rica do todo espaciotemporal…” (BOSI, 2006 p.515). De forma geral, os poemas levantam a bandeira formalista, valoriza os significantes e explora os sentidos da imagem e do som.

O ponto de vista teórico que o concretismo defende pode ser percebido no poema de Carlos Drummond de Andrade, Procura da Poesia. Desde os primeiros versos do poeta modernista há uma espécie de metodologia para como deve-se escrever e ler um poema, é um modelo ou a defesa de uma concepção de poesia, Drummond versa na primeira estrofe:

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

O primeiro verso dá a ideia que de não se deve retratar a vida nos poemas, e segue afirmando: o cotidiano não influência, não interessa, não impressiona; no poema não há necessidade da “efusão lírica”, uma crítica a poesia lírica, às correntes Românticas.

Mais adiante no texto há um verso que diz: “ A poesia (não tire poesia das coisas) / elide o sujeito e objeto”, pode-se considerar que este verso, juntamente com a primeira estrofe aqui exposta, expressão a autonomia da poesia, a teoria concretista que afirma que o poema tem sentido em si, sem precisar de uma “desculpa” externa a ele para existir ou alcançar significado.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Estas duas estrofes vão defender o que e como deve ser um poema, o primeiro verso aponta o “reino das palavras”, mas as palavras enquanto significante, como no “estado do dicionário”, paradas e mudas quanto a complexidade, o poema concreto não quer exagero, não quer drama, ele exige calma, ele acredita no poder da palavra e no poder do silêncio como versa Drummond.

Portanto, Procura da poesia defende o ponto de vista teórico da poesia concreta, porém o seu suporte formal não condiz com a teoria concretista, mesmo o auto utilizando versos brancos, ainda há uma construção fundamentada no verso, que a geração modernista de Drummond ainda não havia contestado, há uma linguagem coloquial (mas não vulgar) com um trabalho de selecionar palavras e dar um sentido metafórico, procura se dirigir ao leitor. Portanto, o poema corrobora com o concretismo no tocante a ideologia, mas não no sentido formal.

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